24.8.09

ela e a televisão

ela comprou a televisão. saiu da loja com uma sensação de plenitude. ao certo, ela nem sabia o porquê daquela compra. mas se sentiu tão atraída por aquele visor grande, colorido e que na vitrine da loja estava ligado num canal onde passava um filme com muitas cores. sentiu-se como um inseto em torno de uma luz forte. entrou e comprou.

pagou caro, mas isso não era problema. ela tinha dinheiro o suficiente para comprar uma daquelas todos os meses. nunca se importou com valores materiais. sentia-se muito mais atraída e espantada com os valores espirituais. naquele momento ela só precisava comprar aquela televisão para sentir-se mais completa. ela olhou incessantemente a televisão mesmo depois da compra. estava parada diante da loja, com aquela vitrine cheia de objetos dos mais variados tipos, modelos e funções. mas a única coisa que lhe chamava a atenção era a televisão, mesmo em vista de tantas outras “ofertas”. ficou ali, alguns minutos. quem a olhava pensava ver alguém em transe.

ela, sempre tão bem vestida, tão bem arrumada. aonde quer que fosse sentia-se na necessidade de estar bem. e não apenas bem externamente, mas por dentro também. tinha muitas roupas, mas gostava de usar sempre as mesmas por saber que eram aquelas que lhe davam certo prazer e conforto. aqueles dois itens necessários para que ela se sentisse bem para sair de casa. tinha um imenso prazer em estar bem, pois para ela, aquilo parecia mostrar que ela estava disposta a estar bem. tinha ideia de que aquilo fazia bem não apenas a si mesma, mas às pessoas ao seu redor. seus cabelos eram compridos e escuros, era alta e com um ar esguio. muitos a tinham como uma mulher fria e racionalista. ela apenas sentia-se sozinha. com seu jeito altivo e muitas vezes mal interpretado como esnobe, fazia o que bem entendia de sua vida. tinha pequenos prazeres os quais sempre fazia questão de cumprir diariamente. era uma mulher ocupada. muitos negócios e preocupações às vezes lhe tiravam a vontade de viver. seu trabalho não dependia apenas dela, porém, qualquer erro poderia ser fatal e quem morreria, no caso, seria apenas a pessoa responsável.

tinha uma vida social conturbada e agitada. era confortável assim, mas aquilo não lhe satisfazia por completo. ela precisava estar tranquila. ela sabia que já tinha atingido um patamar em sua vida, onde todos a queriam bem e sentiam certa necessidade de sua companhia. porém, via-se seguidamente sendo trocada por outras coisas, o que acabou tornando seu pensamento um pouco pessimista demais ao necessário. tudo era motivo de comparações, análises e estatísticas. contava às vezes com a boa vontade alheia, que nem sempre estava pronta pra ela. isso a tornava forte. aprendeu a ser sozinha, mas não solitária.

ela sentia necessidade de amar. sabia ser uma pessoa difícil de lidar. às vezes queria, às vezes não. às vezes bom humor, às vezes uma cara fechada que a tornava cada dia de mau humor um furacão sexy por onde passava. aquilo sim, lhe dava prazer. aquela sensação de mulher poderosa, cheia de energia a ser liberada. não seria fácil encontrar alguém para acompanhá-la em seu dia-a-dia, sabia muita bem disso. mas não desistia jamais.

naquele dia, estava tão feliz. acordou, levantou da cama. foi de pés descalços até o banheiro, girou a maçaneta prateada, escolhida a dedo na construção da casa. tinha um imenso prazer em estar em casa, confiava no seu bom-gosto para satisfazer-se a si mesma. entrou nua no banheiro, era como gostava de dormir. foi até o espelho e como qualquer mulher vaidosa, olhou-se dos pés à cabeça. em outros dias ela acharia muitos defeitos em seu corpo: desde aquela manchinha quase imperceptível aos olhos alheios, passando por uma barriguinha inexistente a qual ela mesmo insistia em dar a existência, até o seu cabelo desarrumado. porém, naquele dia ela mirou-se ao espelho e disse para si mesma: “ótimo!”. foi até a pia, lavou o rosto, ligou o chuveiro, esperou esquentar. colocou a ponta de seus pés sob a água, sentiu um pequeno estremecer pelo choque dá água ainda fria, com seu corpo quente. tomou um banho demorado. pegou a toalha branca, secou-se. saiu do banheiro, foi até o closet, escolheu um conjunto qualquer de roupas. atípico de sua parte, porém mesmo sem pensar, viu que suas mãos já estavam acostumadas ao bom-gosto natural que tinha. vestiu-se e saiu.

era cedo. o sol já estava forte, fazia um leve frio. sabia que teria de almoçar e ir trabalhar ainda. mas tinha em mente que era sábado e que não precisava estar preocupada com o trabalho. andou até a garagem, entrou no carro e ainda, antes de arrancar, olhou-se no espelho retrovisor e disse novamente: “ótimo!”. sentia-se estranha. mas estava totalmente inebriada com uma sensação que nem mesmo sabia qual era. estava sendo impulsiva uma vez na vida. dirigiu até o centro comercial onde ficava seu escritório. um ambiente agradável: muitas árvores, muitos bancos, chafarizes. ela gostava daquele clima que misturava natureza, um algo de retrô, tudo isso misturado à muita tecnologia. sua casa tinha muito daquilo. estacionou o carro. deixou todas suas coisas dentro dele e saiu. antes de qualquer coisa, inconscientemente tinha decidido dar uma volta no parque que tinha próximo ao seu trabalho.

como sempre, desceu do carro com muita elegância e timidez. uma mistura que quem estivesse passando não poderia não perceber e não admirar. seu andar mostrava determinação e vontade. seu olhar dizia que era muito melhor manter-se a alguns metros de distância. caminhou até o parque e ficou por algum tempo andando por ali.

voltou ao centro comercial, almoçou sozinha no restaurante. alguns olhares furtivos eram lançados a sua figura, porém nenhum era o suficiente para corresponder aos grandes olhos negros, cheios de mistérios que respondiam com tamanha graça e força. terminou seu almoço, deu-se ao luxo de uma grande trufa de chocolate. saboreou-a com grande entusiasmo, até lambuzou-se. por um minuto ficou sem graça pelo feito. logo após refez-se do acontecido e brincou consigo mesma: “ótimo!”. saiu do restaurante, dirigiu-se ao trabalho. entrou em sua sala, sentou-se em sua cadeira e trabalhou. algumas horas depois, olhou em seu relógio e constatou que tinham se passado quase quatro horas que esteve concentrada em seu trabalho. sentiu-se novamente estranha, porém bem e feliz.

não tinha planos pr’aquele dia. todos ligavam incessantemente, mil convites, muitas dúvidas. decidiu por desligar seu celular. do outro lado do centro comercial, ficava o shopping. resolveu ir até lá. não sabia o porquê. normalmente shoppings não chamavam muito sua atenção. foi.

começou a caminhar e então não resistiu àquela televisão. primeiramente, seguiu-a com os olhos muito minunciosamente. analisou cada detalhe, percebeu que o bordô encardido e escuro que predominavam lhe atraiam muito. queria tocá-la. por um momento sentiu-se idiota. quem quer tocar numa televisão? mas ela sentia-se na necessidade de fazê-lo. foi então que decidiu entrar na loja e comprar. mas ao efetuar ao pagamento ela não sentiu que estivesse comprando a televisão, mas sim que a televisão a tinha comprado. achou aquilo esquisito. pensava na televisão como algo misterioso a ser descoberto.

depois daquele primeiro contato com a televisão bordô, ela teve de esperar alguns dias até que a televisão chegasse até sua casa. durante aquela semana de espera, sentiu-se muito estranha. a todo momento esperava em ver a televisão novamente. e durante toda a semana ficou na espera. até que no sábado seguinte, acorda com a campainha tocando: era ela! aliás, era o entregador com ela em seus braços. ficou feliz, de um modo muito estranho feliz. ela não sabia nada do que estava acontecendo consigo. assinou os papéis, agradeceu ao rapaz, fechou a porta e caminhou em direção à caixa. lacrada. sentia uma tensão em seus músculos. seu sorriso variava do medo ao êxtase. com cuidado cortou o lacre, passou a mão pela caixa. abriu uma das tampas, viu que até o fundo dela ainda existiam muitos papéis até ela poder tocar na sua superfície lisa e firme. foi, aos poucos, retirando os isopores, papéis e todas as coisas que atrapalhavam a sua visão completa daquele colorido que lhe chamava atenção. então conseguiu desfazer-se de todas as caixas e papéis. colocou-se à frente da tela. antes tinha ligado os cabos à tomada. antes de ligá-la, sentiu-se com uma imensa vontade de acariciá-la, tocá-la, sentí-la. pensava estar louca, mas aquela sensação lhe trazia muita liberdade e prazer. fez tudo o que teve vontade. sentiu que estava pronta pra ligá-la. apertou o power. esperou alguma reação. a luz interna brilhou. alguma imagem estava por vir. apareceu uma mensagem. ela disse: “ótimo!”

ela, ela precisava de um código para poder usufruir totalmente daquela televisão. podia tocá-la e sentí-la o quanto quisesse, mas precisava esperar o código chegar para poder alcançar até o mais íntimo daquele objeto que a fascinara. sentiu-se fraca, nula, impotente. porém pensou, que mesmo sem o código, ela ainda a mantinha sob poder. poderia cuidá-la até o momento de o código chegar. era tudo uma questão de tempo. 

Um comentário:

Alice disse...

códigos? canais? significados e significantes?

aqui tb? Oo

ó céus.